
O laudo clínico do cachorro comunitário Orelha confirmou que o animal sofreu lesões graves provocadas por espancamento na Praia Brava, em Florianópolis (SC). O caso gerou forte comoção social, ultrapassou as fronteiras do estado e reacendeu, em âmbito nacional, o debate sobre a efetividade das leis brasileiras de combate aos maus-tratos contra animais.
De acordo com um laudo preliminar, Orelha apresentava uma lesão grave na região da cabeça, especialmente no lado esquerdo do rosto, com inchaço intenso. O exame também apontou protusão do olho esquerdo, além de sangramentos pelo nariz e pela boca. Os veterinários relataram ainda a possibilidade de fraturas na mandíbula e no maxilar.

O animal apresentava sintomas neurológicos e clínicos severos, como falta de coordenação motora, dificuldade respiratória e redução da frequência cardíaca. Mesmo após procedimentos emergenciais para tentar reverter o quadro, Orelha não resistiu e morreu, segundo consta no documento que embasa novas análises da Polícia Científica.
O caso é atribuído a um grupo de adolescentes e ganhou novos desdobramentos com a apuração de tentativas de intimidação de testemunhas e suspeita de novos atos de crueldade. A repercussão mobilizou campanhas nas redes sociais, com apoio de artistas, ativistas e políticos de diferentes espectros ideológicos, que passaram a cobrar mudanças na legislação e maior rigor do Judiciário na punição dos crimes.
Conhecido pela docilidade, Orelha vivia há cerca de dez anos na Praia Brava e era cuidado por moradores e comerciantes locais, sendo considerado um mascote da região. Ele foi encontrado gravemente ferido em uma área de mata e levado a uma clínica veterinária. Diante da gravidade das lesões, foi submetido à eutanásia.
A Polícia Civil de Santa Catarina identificou quatro adolescentes como suspeitos das agressões e investiga a possível participação de adultos na tentativa de interferir nas investigações. Três familiares dos jovens foram indiciados por coação no curso do processo, após, segundo a polícia, tentarem intimidar um vigilante que testemunhou o ataque.
Para defensores da causa animal, o crime evidencia falhas estruturais na legislação brasileira. A ativista Luisa Mell avalia que, apesar dos avanços recentes, a lei ainda não diferencia adequadamente a gravidade dos maus-tratos, o que compromete a eficácia das punições.
Desde 2020, maus-tratos contra cães e gatos podem resultar em pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa e proibição da guarda de animais. Apesar de representar um avanço, especialistas apontam que a aplicação prática da lei ainda enfrenta limitações, especialmente no efeito dissuasório das penas.
Fonte: O Globo






